Doping genético (2)

Deu na Folha:

Terapia com DNA já pode virar doping

Se a chegada do chamado doping genético (uso de terapias genéticas para ganhar força, resistência e velocidade) ao mundo real fosse comparada com o percurso de uma maratona, seria possível dizer que mais da metade do percurso já foi feito.

Nos laboratórios do Brasil e do mundo, muitos estudos com terapia genética estão em curso. No país, segundo a Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) existem pelo menos 50 projetos em humanos. Todos focando doenças, como o diabetes, a anemia falciforme ou problemas cardíacos.

“A terapia genética pode ser usada por atletas como doping genético”, diz Renato Kalil, cientista do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul. “O plasmídeo [molécula circular dupla de DNA, que normalmente existe em bactérias e é usada para levar material genético direto ao tecido-alvo da terapia] que nós usamos para o caso do VEGF [proteína que promove crescimento de vasos sangüíneos] poderia ser usado por algum atleta enlouquecido por resultado”. Seria “simples” aplicar a técnica, diz o cientistas, mas o risco é incalculável.

A percepção do pesquisador gaúcho –e de outros cientistas envolvidos com o tema– indica que a linha de chegada para que a terapia genética migre dos laboratórios às pistas, quadras e piscinas está mais perto do que o ponto de largada.

A Wada (Agência Mundial Antidoping, na sigla em inglês), instituição ligada ao COI (Comitê Olímpico Internacional) diz publicamente que o doping genético “real” é algo distante, mas já tomou medidas contra o futuro problema. Por via das dúvidas, a prática está inserida na lista de proibições que o órgão fez para a Olimpíada de Pequim, que começa na manhã da próxima sexta-feira no Brasil.

A entidade veta o doping genético, definido como “uso não terapêutico de células, genes, elementos genéticos ou a modulação da expressão genética, que tenha a capacidade de aumentar o desempenho atlético”. Esse texto consta do código mundial da Wada desde 2004.

O ato de proibir –que alguns humanistas criticam, porque as vantagens físicas podem ser determinadas naturalmente pelos genes de uma pessoa– não é a única medida tomada até agora. Existem 21 projetos de pesquisa em todo o mundo, financiados pela Wada, que têm um objetivo único: desenvolver métodos eficientes para que as mudanças genéticas em seres humanos possam ser flagradas.

No total, em 2008, US$ 7,8 milhões foram injetados em pesquisas -aproximadamente 25% do total gasto com estudos antidoping na agência.

O médico brasileiro Eduardo De Rose, da Wada, diz que não espera flagrar o doping genético agora. Se ele ocorrer, porém, há ainda alguma esperança de descobri-lo. “A violação dessa regra antidoping poderá ser vista por outros tipos de prova, como o testemunho do atleta ou mesmo de sua equipe.”

De acordo com Guilherme Artioli, ligado à Faculdade de Educação Física da Universidade de São Paulo, não é possível afirmar que ninguém tenha feito o doping genético. Segundo ele, provavelmente em uma década, o primeiro caso dessa história deverá ser anunciado, mesmo porque as técnicas para flagrar isso serão mais precisas.

Conhecedor do comportamento de atletas, o pesquisador não hesita em dizer: “Ninguém dúvida que eles sejam loucos o suficiente”. Artioli é o autor de um dos raros artigos científicos sobre o tema em português.

“Por enquanto, [o que temos] são suposições baseadas no conhecimento bioquímico. Isso é muito diferente de uma terapia e mais ainda de uma aplicação como doping”, afirma Francisco Radler, coordenador do Laboratório de Controle de Dopagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro, única instituição do país credenciada pela Wada. “A atitude proativa da agência internacional [em financiar pesquisas] mostra que os atletas terão pouca margem de manobra quando pensarem em usar o doping genético.”

Fonte: [Folha Ciência]

Share