A respeito da solidão

Li hoje, lá no Cartunista Solda, uma crônica do Wilson Bueno falando da solidão. Interessante ponto de vista, a terra com gente saindo pelo ladrão, e a gente se sentido solitário. Fala do barulho das cidades, e de como Curitiba fica “barulhenta” no feriado. Leia. Depois ouça a recomendação dele para estes dias quando a solidão aperta.

Em esclarecedor livro de entrevistas com o Dalai Lama, um sábio em toda extensão da palavra, o escritor francês Jean-Claude Carrière pergunta, entre outras, o que ele acha da solidão. E o líder espiritual do Tibet, no exílio, apesar de solteiro por imposição religiosa, e também por imposição religiosa com larga experiência monástica, obrigado a grandes períodos de isolamento, sorri e conclui, com cortante lucidez: “É uma arrogância sentir solidão num mundo de 6 bilhões de habitantes…

Nós, os precários mortais, sabemos, contudo, que não é bem assim. O Dalai está sendo treinado desde a infância, através complexos exercícios búdicos, não só a acolher a solidão, como a entender uma série de outros venenos que tornam o homem moderno este fantasma em busca de porto e lenitivo. Nem sempre facilmente encontráveis, convenhamos.

Ele mesmo, o iluminado “papa” dos budistas, revela em outro trecho do livro, que suas conquistas espirituais só foram alcançadas “após treino, vigilância e implacáveis esforços”. Não seríamos nós que, muita vez, atrapalhados e confusos, sequer suportamos a perda de nossos gatos e cachorros, que vamos, de uma hora para outra, posar de olímpicos campeões mentais a vencer nossos desassossegos.

A solidão, por exemplo, virou uma praga moderna. Dia desses, um amigo, pai de cinco filhos, casado há quinze anos, a casa invariavelmente cheia, me confessava, numa melancolia de causar dó, que não suportava mais a “solidão em família”… Indiquei-lhe de pronto o psicanalista João Perci Schiavon, como costumo fazer, com frequência, nesses casos.

Entendi, solidário a ele, que das solidões esta possivelmente seja a pior delas. Foi, um tempo, minha pena e meu martírio. Embora a casa materna, os pais, o irmão e a primarada, álacres e constantes, ardia na febre de um desamparo irremediável. Nesse tempo, nem dois tonéis de vodca aplacavam o sentimento odioso.

Quantos amigos, cercados de afetos e ruídos, lançaram-se à corda ou ao gás como último alívio? Não faz uma semana, um antigo vizinho, da casa da esquina, deixou esposa, filhos, netos e noras depois de intenso período depressivo. Preferiu o silêncio eterno, que até passarinho evita, a continuar morrendo em vida.

Curiosamente, embora reclamão e insatisfeito sempre, não posso dizer, sem mentir, que me sinto sozinho. Quando alguma coisa doida dentro mexe e a noite se enche do uivo dos cães do subúrbio, embora o ruidoso escândalo, ponho Janis Joplin, em bom volume. E rouca a voz acorda os anjos do céu em Cry, Baby. Ou o enormíssimo cronópio Armstrong em What a Wonderful World. O mundo de novo, vos garanto, se enche de graça. Quem for de experimentar, que experimente.

Wilson Bueno (3/5/2009) O Estado do Paraná.

Share

3 Comments

  • Tenho que concordar com o Dalai Lama.
    Mas como não quero discutir com o Wilson Bueno, proponho um exercício de raciocínio, pois creio que esse “mal” (solidão) tem origem, e espaço aberto para procriar, em cidades grandes principalmente, e é coisa recente.
    Ainda na semana passada, em palestra para alunos do curso de “guia de turismo” em Curitiba, chamei a atenção para as dificuldades da profissão de, por causa da dificuldade de entendimento entre as pessoas, em plena “era da comunicação”. O que eu queria que ficasse claro para os alunos é que eles notassem como as pessoas estão “fechadas”, sendo difícil estabelecer uma comunicação plena.
    Já dizia o Chacrinha que “quem não se comunica se trumbica”, e acontece que estamos deixando de lado nossa capacidade de interação / comunicação. Melhor dizendo, alguns aspectos importantes da comunicação têm sido paulatinamente ignorados, como o OUVIR. Já sabemos, por demonstrativos, estudos, pesquisas e até por experiência própria que as pessoas sentem necessidade de serem escutadas, mas para escutar bem é preciso parar de falar e realmente prestar atenção. Acontece que na vida moderna, em algum ponto do nosso crescimento somos desviados para questões “supostamente importantes” e deixamos as “relações humanas” de lado, passando a privilegiar relações comerciais. Não podia dar noutra coisa!
    Vamos parar e lembrar um pouco: desde quando estamos sendo ensinados a “nos isolar” em nome da nossa individualidade? Há quanto tempo valores materiais passaram a despertar maior interesse do que os morais? Por mais que eu goste de uma calça “Zapping”, ou um relógio “Tag Heuer” eles não podem me dar um abraço. E me parece que, em um estudo (mais um, arghh!), foi comprovada a eficácia dos abraços para aumentar nossa sensação de bem estar!

  • Isso lembra o poema de Leminski:

    ainda ontem
    convidei um amigo
    para ficar em silêncio
    comigo

    ele veio
    meio a esmo
    praticamente não disse nada
    e ficou por isso mesmo

    É curioso como às vezes podemos nos sentir sozinhos no meio de todos, ou acompanhados no meio de tudo…

  • Pingback: Catatau

Post a new comment

Your email will not be published.
Submitting comment...