Curitiba e os candidatos a prefeito

Li esta crônica (posso chamá-la assim?) no Solda. É do Dante Mendonça, que também dispensa apresentações, pelo menos para quem é do Paraná. Concordo com o que ele disse, apesar de não ter assistido ao programa. Muitos já demonizaram o Lerner e Curitiba, mas basta uma saída para fora dos limites do Atuba, para perceber que estamos bem. Claro, podemos melhorar, e muito, mas acho pouco provável com este tipo de gente concorrendo ou atualmente dirigindo a cidade. Este verbo, por sinal, vem bem a calhar: a cidade é pensada do ponto de vista (?) de uma bunda confortavelmente instalada atrás do parabrisa. Vamos ao que interessa:

Domingo à noite, o Discovery Channel apresentou um documentário que deveria ter ser sido apresentado aos candidatos a prefeito de Curitiba, antes de “viajar na maionese” do metrô.

“Projetos e soluções para pôr fim ao caos do trânsito” trouxe especialistas e autoridades, além de exemplos de sucesso. Curitiba foi o destaque, com as soluções originais de nossos urbanistas servindo como contraponto ao caos urbano de São Paulo e outras megalópoles desvairadas.

Com uma hora de duração, a produção do Discovery Channel tomou como exemplo um péssimo exemplo, para explicar por que São Paulo chegou à alarmante situação em que se encontra. O programa abre com o apocalipse urbano: a frota de veículos de São Paulo já passou dos seis milhões e não pára de crescer. Diariamente, 900 novos carros entram em circulação, de acordo com dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Os paulistanos que enfrentam o trânsito e recordes de congestionamento chegaram à conclusão de que o fim do mundo está próximo.

Com objetivo de oferecer alternativas para o colapso de São Paulo, “Soluções para o trânsito” mostra como projetos que pareciam absurdos e ambiciosos conseguiram sair da prancheta para se tornar realidade nas cidades de Bogotá, Cidade do México, Londres e … Curitiba! A par disso, engenheiros, sociólogos e arquitetos avaliam a aplicabilidade das soluções apresentadas ao caos de São Paulo, onde Deus criou Rita Lee e o diabo os viadutos.

O próximo prefeito de Curitiba deve administrar a cidade nos próximos quatro anos (talvez oito ou mais, caso a oposição venha a vencer), mas nenhum deles ousou discutir com coragem o pedágio urbano como alternativa futura. Por que não? Entre os exemplos internacionais mostrados pelo Discovery está o pedágio urbano de Londres, que apesar de polêmico trouxe resultados efetivos: 57 mil veículos a menos em circulação e o aumento da frota de ônibus com a receita obtida com a taxa, reduzindo o tempo de espera dos passageiros. E, para gáudio dos nossos “nudistas das bicicletas”, o pedágio na área central de Londres aumentou em 50% os usuários das magrelas.

Curitiba foi estrela do documentário. Bogotá e Cidade do México as coadjuvantes, exemplos de ótimas soluções inspiradas em Curitiba. Jaime Lerner, como não podia deixar de ser, o inspirador. Com aquela silhueta de sapateador do Teatro do Paiol, Lerner pontuou os depoimentos com suas frases de caderninho. Só não disse, em respeito à memória da mãe de dona Fani, que carro é como sogra: “Você tem que conviver com ele, mas ele não pode mandar na sua vida. E se sua sogra é a única mulher da sua vida, você está com algum problema”.

As gravações do Discovery Channel em vários cenários de Curitiba foram realizadas em março passado. Duraram vários dias e deixaram Lerner com a língua de fora. Exigentes ao extremo, os produtores repetiam cada tomada de três a sete vezes. Isso, em se tratando de um arquiteto que pensa mil vezes mais rápido do que fala, não é de se estranhar.

Documentários sobre o transporte urbano de Curitiba já foram feitos muitos, oficiais ou não. No entanto, nenhum deles é tão sucinto como esse do Discovery, no plano comparativo com o caos de São Paulo e no aspecto didático, ao mostrar as vias expressas como indutoras do crescimento da cidade.

Documentários como esse deviam ser apresentados nas escolas, para os meninos aprenderem que Curitiba não nasceu do jeito que é. Boa parcela da população imagina que as nossas vias trinárias só foram feitas para embelezar o centro da cidade. O sistema de ônibus expresso de Curitiba é parte de um projeto que redesenhou a cidade e contribuiu em muito para a auto-estima dos curitibanos.

Hoje, apesar de ser a capital brasileira com o maior número de carros por habitante, somos exemplo para o mundo. Mas é preciso antecipar novas soluções, ou o futuro nos levará a São Paulo. Temos maus exemplos na periferia, é verdade. O que não nos deixa esquecer que somos uma cidade da América Latina, como qualquer outra do Brasil.

Dante Mendonça (30/9/2008) O Estado do Paraná.

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