Morte anunciada!

Saiu hoje no O Estado do Paraná e no Solda a coluna do Dante Mendonça, que transcrevo inteiramente aqui.

Segundo estudos do Centro de Pesquisas Urbenáuticas do jornalista e advogado Eduardo Fenianos, o Batel é o bairro com a maior concentração de loiras oxigenadas por metro quadrado de Curitiba.

O urbenauta é pesquisador aplicado, não podemos duvidar de suas conclusões. No entanto, caso se confirme a mutilação da Pracinha do Batel (foto), podemos suspeitar que aquele rico endereço tenha também a maior concentração de louras burras por metro quadrado de Curitiba. Com todo o respeito aos batelenses, só mesmo a desinteligência trocaria a praça, por menor que seja, por mais uma faixa de asfalto.

Tradicional ponto de encontro do bairro, a Praça do Batel abriga concorrida banca de jornais, duas floriculturas e algumas valentes árvores.

A morte da praça tem único propósito: a abertura de mais uma rua para desafogar o trânsito de veículos na região. O simpático espaço urbano tornou-se estorvo. Tempo é dinheiro, ninguém pode perder preciosos minutos no contorno da pracinha. Bem mais cômodo e simples é o automóvel passar por cima da praça, da banca de revistas, das floriculturas e das árvores, que só servem para atravancar o trânsito.

Isso tem lá a sua lógica.

Se hoje os automóveis passam por cima da Praça do Batel, amanhã podem passar por cima da Catedral Metropolitana, aquele trambolho que há muito vem atrapalhando o trânsito da Praça Tiradentes. É a lógica maluca do trânsito: atrapalhou, passa por cima.

Primeiro a Praça do Batel, depois a Catedral, no dia seguinte a Praça Osório, outra praça que merece ser rasgada em duas para ligar o futuro trânsito da Rua das Flores com a Comendador Araújo, em direção ao Batel. E não podemos esquecer o Passeio Público -, local em desuso até para dar pipocas aos macacos, por escassez de macacos – área que bem poderia abrigar uma torre para estacionamento de veíulos.

Tudo tem a sua lógica e, se não tiver, passa-se por cima da lógica – esse é o raciocínio daqueles que vêem uma rua, ou uma praça, apenas como referência econômica.

A Pracinha do Batel é muito mais do que patrimônio público descartável que está atrapalhando o trânsito.

É referência histórica, ícone urbano, é parte do patrimônio afetivo da cidade.

Não custa repetir, a propósito: em Curitiba, a década de setenta teve início em maio de 1972, quando os pedestres ganharam a Rua das Flores, e culminou com a visita do papa, em julho de 1980. Depois de abençoada por João Paulo II, a capital caiu na tentação dos sete pecados capitais: a luxúria nas obras públicas, a soberba da sociedade, a vaidade dos governantes, a gula dos grandes negócios, a avareza dos privilegiados, a ira dos desfavorecidos e, apesar do orgulho dos seus habitantes, quase 30 anos depois só nos resta ajoelhar, confessar os pecados e pedir perdão ao sucessor do polaco Wojtyla, o alemão Joseph Ratzinger que foi embora ontem.

O atentado à Praça do Batel é o pecado maior. Está inscrito no 6.º mandamento: “Não matarás”. Por que matar o que é de nosso afeto?

Texto: Dante Mendonça.

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